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CPFL vê risco em prédio invadido

Às margens do Anel Viário Magalhães Teixeira, os apartamentos das quatro torres do Condomínio Itayu, na região do Carlos Lourenço, em Campinas, ficam iluminados à noite. O conforto da energia elétrica foi possível graças aos “gatos”, ligações clandestinas improvisadas, irregulares, que puxam energia da rede. Mas por trás desse conforto há um risco iminente de incêndio, segundo a CPFL, como o que aconteceu no Edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, em São Paulo, que culminou em mortes (pelo menos duas vítimas já foram identificadas) e trouxe à tona o risco de uma tragédia, em decorrência das ligações clandestinas.

O condomínio, no Jardim Itayu, segundo fontes, está abandonado há pelo menos 21 anos, mas há dez começou a ser ocupado. Há dois anos, segundo a Secretaria Municipal de Habitação, ao menos 120 famílias estavam no local — um total de 275 pessoas, entre adultos, idosos e crianças. O “gato” já virou caso de polícia. Há um mês a Polícia Civil abriu inquérito para investigar supostas irregularidades no local, entre elas o furto de energia.

A denúncia foi feita pela CPFL Paulista. No entanto, o andamento das apurações esbarra no quesito laudo. Como o condomínio é fechado e tem porteiro, ninguém entra sem autorização. Com isso, tanto a polícia como a distribuidora ficam de mãos atadas. A companhia diz que não pode fazer o laudo técnico. Por outro, a polícia não pode agir sem o laudo que comprove a ligação clandestina. A Justiça já deu reintegração de posse há um ano, mas até hoje o dono do imóvel não toma providências.

Ninguém quer ser responsabilizado por uma tragédia iminente. “Desde aquele dia (do incêndio e desmoronamento do edifício localizado no Largo do Paissandu) ficamos com medo. A gente só usa a luz mesmo para iluminar. Temos orientação para não usar o chuveiro, pois pode sobrecarregar a rede”, disse um morador, cujo nome foi preservado. “Banho, só de canequinha”, garantiu.

No final de março deste ano, a CPFL solicitou instauração de inquérito policial sobre o furto de energia. A comunicação foi feita por meio de um requerimento enviado ao delegado do 10º Distrito Policial (DP), no Jardim Proença, responsável pela área onde está o condomínio. Foi aberto o inquérito, mas para comprovar a denúncia, a polícia pediu para a companhia apresentar um laudo técnico que comprovasse o furto de energia.

Entretanto, a distribuidora informou para a polícia que não consegue produzir o documento, uma vez que se trata de um prédio invadido. “Estamos analisando todos os riscos de uma operação que envolve várias famílias. Não podemos entrar em um local sem ordem judicial. Só porque há luz em um local que está invadido, não quer dizer que há furto de energia.

No local pode haver gerador de energia, e aí? Então precisamos de um laudo que garanta esse furto”, disse o chefe de investigação, Marcelo Hayashi. “Se hoje a CPFL está vendo riscos de uma tragédia, em razão de ‘gatos’, não entendo porque a companhia não tomou providências há 10 anos”, questionou Hayashi.

O condomínio é da Habitax Empreendimentos Imobiliários, que em fevereiro de 2016 entrou com ação judicial para reintegração de posse. O pedido foi concedido no ano seguinte, mas até hoje não foi cumprido, segundo a Secretaria Municipal de Habitação, porque o dono do empreendimento se recusa a fornecer os meios de transporte para retirar as famílias. Com isso, até a Prefeitura também fica de mãos atadas, já que se trata de um imóvel particular.

A reportagem procurou por representantes da incorporadora, mas até a tarde de ontem ninguém foi localizado. A busca foi feita por telefone em todos os endereços apontados na ação. Até o advogado que representa a Habitax foi procurado, mas os telefones indicados estavam incorretos.

Em nota, a CPFL Paulista se limitou a informar apenas que, “ao ser identificada pelas equipes de campo ou por meio de denúncias, as ligações clandestinas são tratadas caso a caso, envolvendo as autoridades policiais e Poder Público, conforme a necessidade” e que os furtos de energia são crimes previstos no Código Penal, e a pena pode variar de um a quatro anos de detenção.

“Além de crime, pessoas não habilitadas que realizarem ligação direta na rede elétrica correm o risco de choque e acidentes graves, que podem ser fatais. Cabe esclarecer que a distribuidora investe continuamente na formação e treinamento das equipes operacionais que atuam para regularizar ligações clandestinas e impedir a prática de furto de energia”, frisou a CPFL.

Os Núcleos de Antropologia do Instituto Médico Legal (IML) e de Biologia e Bioquímica do Instituto de Criminalística (IC) identificaram como de Francisco Lemos Dantas, de 56 anos, uma das ossadas encontradas no Edifício Wilton Paes de Almeida, que desabou há 10 dias no Centro da cidade de São Paulo. O anúncio foi feito na tarde desta sexta-feira (11).

Os restos mortais de Dantas foram encontrados pelo Corpo de Bombeiros na quarta-feira. Além dele, já foi reconhecido o corpo de Ricardo Oliveira Galvão Pinheiro, de 39 anos. Ao todo, seis pessoas são consideradas desaparecidas pela polícia.

O nome de Gentil Rocha de Sousa, de 54 anos, foi oficialmente adicionado à lista ontem, após sua família registrar um boletim de ocorrência de desaparecimento. Ele morava no prédio e, desde o incêndio, não foi visto por vizinhos e não entrou em contato com parentes.

Sousa é catador de recicláveis e passava alguns dias pela rua, sem voltar para casa enquanto trabalhava, por isso, a família achou que ele pudesse estar fora do prédio quando desabou. Também estão desaparecidos Selma Almeida da Silva, de 40 anos, e seus filhos gêmeos Werner e Wendel (de 10 anos), e o casal Eva Barbosa Lima, de 42, e Walmir Sousa Santos, de 47. Na tarde de ontem, os Bombeiros localizaram novas ossadas nos escombros. De acordo com o tenente-coronel Guilherme Derrite, os ossos aparentam ser da parte superior do fêmur de um adulto. (Correio Popular)

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